NÃO-SER NO LÉXICO GREGO
É então na tradição grega, depois nos seus prolongamentos cristãos, que o sintagma « não-ser » (mè-on) foi o mais longamente/duradouro empregadoe feito objeto dos mais numerosos comentários; e isto é devido à importância e à diversidade dos empregos de formas verbais de einaï (= ser) na língua grega (Benveniste, Problèmes de linguistique générale, t. I, P. 71), importância que não se encontra nas línguas semíticas. As especulações sobre o ser e o não-ser parecem todas pós-parmenideanas (Parmênides viveu entre 540 e 450 antes de Cristo), e estimuladas pelo seu Poema (sobre o ser). Citemos Melissos e sobretudo Gorgias que escreveu um tratado Do Não-Ser e da Natureza no qual expunha, de alguma forma, as possibilidades que oferece a dialética on-mè on. Alguns vêem, a filosofia platoniana como nada mais que uma superação metafísica desta dialética (pelo Bem « além da ousia » que transcende e inclúi a distinção da identidade e da Alterabilidade), enquanto que Aristóteles nos oferece aí uma solução cosmológica (doutrina do ato e do poder/potência). Nesses textos, o « ser » e o « não-ser » designam geralmente as regiões do real e do irreal (como em Shankara) e não qualquer um ou qualquer coisa, uma entidade: essas são as categorias filosóficas e não teológicas. Mas, pode-se hesitar (de onde a incerteza sobre as maiúsculas). Platão, em certas passagens (Sofista, 248 a), parece identificar « o ser mais que perfeito » à Deus (que nomeia mais frequentemente « Bem » ou « Um »). Quanto à Aristóteles, sabe-se que a interpretação habitual de sua ontologia como teologia levanta hoje algumas dificuldades. Somente dois séculos mais tarde, com Plutarco, que a identificação de to on à Theos é atestada pela primeira vez: « Dizemos à Deus : « Tu és », lhe dando assim uma nomeação exata e verídica, a única que convém somente à Ele, a do ser » (De E apud Delphos, fim do cap. 17). No século II, com Numênio, aparece a primeira atestação de Deus como o ôn (o Ser, no masculino) e não mais to on (no neutro), o que testemunha a influência da «ontologia do Arbusto ardente »; sabe-se que, com efeito, foram os judeus alexandrinos os primeiros que tomaram o ‘èhyèh ‘ashèr ‘èhyèh por Egô eimi o ôn: Eu, eu sou o Ser (por excelência) 1 . É então que, correlativamente, o mè on pode adquirir, indubitavelmente, um valor « teológico »: o Não-Ser como princípio supremo além do Ser. Em Plotino, este uso não é ainda adquirido e o não-ser parecer ter um sentido « pejorativo » ( pelo menos de não ver em não-ser da maneira inteligível uma alusão discreta à Deus nunca vista como Não-Ser. É notável, entretanto, constatar que, apesar do ontológico Arbusto ardente que parecia impor Deus como « Aquele que é » por exelência, Orígenes segue Paltão e Plotino para afirmar a transcendência supra-ontológica de Deus: « (contempla-se) de início a Verdade por vir assim até fixar os olhos sobre Ser ou, além do Ser, sobre o poder e a natureza de Deus » (Commentaire de Jean, XIX-6, § 36-37 ; trad. P. Nautin). E em Contra Celsum, VI-64 : « A questão do Ser (ousia) é longa e difícil, e sobretudo (...) por achar se Deus está « para além do Ser em dignidade e em poder » (citação de Platão) tudo nisso fazendo participar com o Ser aqueles que ele fez participar conformemente à seu Logos e seu Logos ele-mesmo, ou se é, ele também, Ser ». E, conclui (ibidem): « o « Monogenista », « Primogênio nascido de toda criação » (Col. I-15) é Ser dos seres, Ideia das ideias e « Princípio », enquanto que seu « Pai » e seu « Deus » (Jn. XX-17) está « para além » de todas essas coisas ». Mas, é sobretudo Proclus ( século V ) que faz uso teológico e meta-teológico do sintagma mè on que acha já em Platão e o qual confere ( a justo título) a dignidade do Princípio supremo, se aplicando aí ao Um trascendente ( ou mesmo para além do Um ). De todos os neo-platônicos ele é, segundo alguns, o mais próximo da « maneira » guénoniana; explicita, também, escolasticamente quanto possível, a significação esotérica do platonismo. Não é até a doutrina do que Coomaraswamy chamava de « bi-unidade » divina (a distinção não-separativa do Infinito e da Possibilidade universal, isto é, em linguagem "schuoniana", do absoluto e da Relatividade suprema ou infinito)que não se encontra claramente exposta: « A indeterminação da matéria, escreveu J. Trouillard (resumindo Eléments de Théologie, § 92) a ela-mesma sua norma na autoapeira, a Infinidade pura, que é a mola/corda de toda marcha/processão e a primeira expressão do Um antes do Ser mesmo » (Aubier, p. 25). Certamente, o ser é infinito, mas, não é o Infinito puro. Quanto ao supremo Um, declara Proclus (ibid., § 138) « dentre os princípios, tem-se o imediatamente para além do ser e Não-Ser , tanto que ele é superior ao Ser e que Ele é Um ». Igualmente, explica, em sua Teologia Platônica (II-2, p.83-84) : « é no Ser que se encontra o múltiplo (as possibilidades não-manifestas) e no Não-Ser, o Um (en mè ousia to en) ». A imensa obra de Proclus pôde transbordar/ultrapassar o quadro do neo-platonismo strico sensu, uma vez que ela veio fecundar a obra da teologia cristã, graças de início à « Dionísio o Areopagita » que se refere diretamente, com todo o peso que se prende à uma Autoridade quase-apostólica (a do convertido de S.Paulo, autor jeronimiano do corpus areopagítico). Por meio dele, o pensamento cristão (sobretudo latino) vai se beneficiar, em sua expressão doutrinal, da seiva supra-ontológica do platonismo. Por Dionísio, com efeito, o Bem-Um transcende a oposição do ser e do não-ser, o que não faz o Ser: « O nome de Bem, se aplica à Deus (. ..), se estende à todo ser e à todo não-ser. O nome Ser se estende somente à todo ser, ao mesmo tempo que transcende a todo ser » (Nomes divinos, 816 B ; em 817 C, Deus-Ser é aliás referido em Exodo, III-14). É então preferível identificar Deus ao Nada, pois, « Não existe Nada Rien em nada e Ele é, no entanto, conhecido por todos em tudo ao mesmo tempo que Ele não é conhecido por nada em Nada » (872 A).
Também Dionísio celebra em inúmeros textos a "Théarchie ( Thearchia )" supra-essencial ( isto é supra-ontológica) tudo em precisando, no entanto, que não saberíamos ter acesso diretamente ao Sobre/Supra-Ser, senão/ a não ser no silêncio e na não-consciência. Para todo outro conhecimento, o Sobre/Supra-Ser não se deixa ver senão pela forma do Ser, e é porque a Escritura nos revela assim: « o amor de Deus pelo homem envolve o inteligível no sensível, o Supra-essencial no Ser » (592 B). Assim se perpetua de era em era a fórmula platônica do Bem « para além do ser ». Sua transcendência absoluta implica aliás uma imanência radical: « o ser de tudo é a Deidade que está para além do ser » (Hierarquia celeste, 117 D). S. Máximo o Confessor, comentando os Nomes divinos (P.G. IV, col. 189 A) declare : « Deus é chamado Ser e Não-Ser. Pois, não é nada do que são os seres ». Chega até à afirmar: « Não acho que o Divino é e que Ele não possa ser compreendido. Mas, acho que que Ele não é. Tal é, com efeito, o conhecimento no desconhecimento » (ibid., 245 C) ; e ainda: « (Deus é) Não-Ser para além de toda essência » (P.G. III, 588 B).
NOTAS: